30
mar
CATEGORIA: Textos

Envelhecer

Tenho muito medo de envelhecer. Não de ficar velha, não tenho medo de rugas e cabelos brancos. Não anseio por eles também, podem demorar o quanto quiserem para chegar. Tenho medo do que acontece quando se envelhece.

Minha vó contava uma história engraçada de quando ela e a irmã dela eram novas. Ela ria muito ao contar. A tal tia-avó da história mora em Curitiba desde que eu me entendo por gente e provavelmente muito mais que isso. Eu posso contar nos dedos quantas vezes minha avó foi até lá ou minha tia-avó veio para o Rio em todos esses anos. Fiquei pensando um pouco nesse fato depois de ela terminar de contar sua aventura. Ela tinha uma irmã que vivia grudada com ela, mas que mal vê agora.

“Você tem saudades da tia Tereza, vó?”
“Muitas.” ela disse séria.

Eu tenho amigos maravilhosos. Os melhores que eu poderia ter, sem duvida. Nem todos eles moram perto de mim, mas ainda assim, converso com eles frequentemente. Um dos elogios que mais me toca é quando alguém diz que tenho uma ótima energia, porque não estão elogiando só a mim, mas a todos os meus amigos. E sei que tenho mesmo, e é tudo culpa deles. Acredito que você é um reflexo das pessoas com as quais você se cerca.

Por mais que ninguém queira, parte de envelhecer é perder um pouco disso. Você vai sendo arrastado bem devagar e, em algum momento, se dá conta de que a correnteza te levou para um canto e seus amigos para outro.

Eu sei que isso não precisa ser necessariamente ruim. Pessoas saem da sua vida e novas entram e as novas podem ser maravilhosas também. E envelhecer faz parte da vida, há de se seguir seu caminho sozinho. Mas eu tenho medo, e medo não é racional. Eu nunca soube aceitar finais, dar adeus, mesmo que já tenha o feito milhares de vezes. E se eu tenho medo de me afastar dos amigos que tenho hoje, é porque eles realmente me fazem feliz.

old-friends

20
mar
CATEGORIA: Textos

Porque eu irei morrer sozinha

Hoje foi um dia com muitas gabriêlices.

Como talvez você saiba, eu não sei flertar. Funciona mais ou menos assim: “como assim você não percebeu que eu estava te dando mole não fazendo contato visual e te ignorando?” Bom, as vezes eu tento. E o que acontece quando eu tento?

Saltei do ônibus e vi um cara que parecia ter sido tirado de alguma revista. Tal individuo não parava de me encarar, daquele tipo que nem tenta disfarçar e vira a cabeça meeeeeeesmooooooooo para te olhar.

“Ok”, pensei, “o que custa a gente flertar de volta?” E foi isso que eu fiz. Encarei de volta. E mantive contato visual por incríveis 30 milésimos antes de explodir em uma crise de risos histérica e sair correndo.

Parabéns, Gabriela. Mas até ai, nenhuma coisa de muito diferente.

Voltei para casa e, depois de um tempo, tive que sair de novo. Desci as escadas e encontro na portaria outro cidadão maravilhoso que faria a minha mãe orgulhosa de te-lo como genro.
“Boa noite” diz o semi-deus da portaria.
Eu, como uma pessoa relativamente normal, tenho a intenção de responder com outro “boa noite”. Mas não, claro que não.

Me enrolo no meio, tropeço nos meus próprios pés e caio estatelada como uma jaca no meio da portaria. Ele fica obviamente preocupado e tenta me ajudar a levantar e eu, mais uma vez, começo a rir loucamente. Ali mesmo, no chão.

Isso tudo me lembra aquela outra vez em que eu estava no metrô com a Lellis e nos duas, ao tentar flertar com um garoto bonito, acabamos por tropeçar uma na outra e sair voando pelo vagão.

E é por isso, crianças, que eu vou morrer sozinha. A seleção natural nunca vai deixar esses gens de notória expertise social serem passados a diante.

04
fev
CATEGORIA: Textos, Vídeos

Parabéns pela pior campanha do ano, Conar

Pra quem não sabe, o Conar é um orgão que regula que as propagandas no Brasil. É esse orgão que diz o que pode e o que não pode e, caso você tenha alguma reclamação sobre alguma propaganda, e com ele que você deve falar.

O Conar lançou uma campanha recentemente que debocha de alguns dos maiores problemas da sociedade brasileira: racismo e machismo. Em comparação ao resto do mundo, damos um show nesses dois quesitos, só perdendo para alguns países islâmicos extremistas.

Brasil: o país onde o Negro é samba e carnaval, mas na escola particular onde eu estudei, podia contar nos dedos de uma mão só quantos alunos negros estudavam lá. Brasil: o país onde se há um dos maiores turismos sexuais do mundo, nenhuma mulher consegue dar 2 passos na rua sem ser assediada, mas se ela não for quase uma freira, é vagabunda e não presta.

Mas e daí, não é, gente? Isso é tudo frescurada, um exagero. Põe mais umas gostosas de bunda de fora pra vender cerveja e umas crianças negras jogando bola na favela que tá tudo certo. Não precisamos reeducar a população, precisamos é dizer que tudo isso que está errado não é importante, tudo coisa de gente politicamente correta.

E ai de você que venha me defender cota ou falar de direitos das mulheres, sua feminazi esquerdista.

Não gostou da campanha ridicula que fizemos? Reclama com o Conar.

O grande problema da campanha não é que o arroz e o feijão estão separados, e que a couve é a unica representante feminina. O problema é que isso é realmente um problema nas propagandas e em toda a sociedade brasileira. Tenho certeza que eles de fato recebem algumas reclamações exageras sobre os dois assuntos, mas essas devem ser menos de 10% de várias outras com fundamento.

Um orgão que deveria proteger as nossas propagandas desse tipo de coisa não pode em nenhum momento satiriza-las e desmotiva-las, isso beira ao surreal.

Mas, é claro, olhando quem faz parte da diretoria do Conar podemos entender direitinho porque eles acham que machismo e racismo não são bem um problema.
diretoria conar

Parabéns, senhores. Vocês estão todos de parabéns pelo desserviço a sociedade.

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